A missão da mamãe
Oi filhinha linda!
Quanto tempo não escrevo pra você. Acho que essa é uma excelente hora pra isso, tenho uma coisa importante pra falar e você já tá uma mocinha e fica atenta ao que a mamãe diz, ainda que não entenda completamente.
Filha, a mamãe de vez em quando precisa viajar. Sei que você sente muito a minha falta, mesmo no corre-corre do dia a dia, nossos momentinhos juntas, ainda que poucos, são muito especiais. A reza antes de dormir, o beijo no “papai do céu”, o gagáu das 10 da noite e o início do dia, bem preguiçoso, e cheio de cheiros e beijos. Mas filha, a mamãe tem uma missão… ou melhor… a mamãe escolheu uma missão nessa vida, e vou te explicar porque ela é tão importante.
Não lembro ao certo porque escolhi ser bióloga, sei que tinha uma professora no ginásio que eu adorava, achava ela inteligente, divertida, livre. Segui a profissão dela e não poderia ter feito uma escolha mais feliz. Nesses mais de 10 anos (entre entrar na faculdade, me formar, trabalhar e fazer mestrado) não teve um só dia que eu duvidei da minha aptidão. Ser bióloga, é ter olhos treinados para ver a vida sob todas as suas formas. É apreciar tudo que existe nesse planeta e que foi cuidadosamente aperfeiçoado ao longo dos anos pra permitir que o mundo gire na mais perfeita ordem.
Então filha, eu formei, aprendi com os melhores, provei do doce sabor de ser alguém, de ter algum prestígio, ser disputada no mercado de trabalho e daí a natureza me mostrou meu tempo, meu ritmo e minha obra mais perfeita: você chegou! E com você veio a vontade de enxergar o outro lado do “poder”. Cansei de ser consultora, de “brigar” com colegas, disputar contratos a tapas e deixar de lado meu lado (literalmente) agressivo de ser. Fiz um concurso do nada, inscrita de última hora, pra ganhar 1/3 do que tava acostumada… e hoje não me vejo fazendo outra coisa.
Minha missão filha, só me foi apresentada por você… Parecia que a dona natureza sabia o que tava fazendo… “minha filha, abre os olhos… vai fazer algo de bom pelo seu planeta, tenta deixar alguma coisa pra sua filha… faz isso e serás feliz”
E tô sendo. Porque filha, passar 10 dias longe de casa, do seu amor, do nosso conforto é duro, mas não é nada perto do que sinto ao ver o que o Homem tá fazendo com a vida. Eu queria tanto que você crescesse e pudesse ver a beleza de uma Mata Atlântica com toda a sua diversidade, árvores que oito homens não conseguem abraçar, Bia. Imagina isso! São plantinhas que estão lá há centenas de anos, nem sei o que testemunharam… e é um absurdo saber que virarão cadeiras e mesas pra gente podre (na maioria das vezes) utilizar.
Por isso luto dia após dia, num trabalho de formiguinha, fazendo o que posso no trabalho, em casa e no meu círculo de amigos.
Afinal de contas, um mais um na conta da natureza é sempre mais que dois.
Um beijo filha, não fica brava com a mamãe, tá? Vai valer a pena. Te garanto!
Tá por fora:

Olha essa árvore que encontramos!!!

Ainda podemos ver um morro como esse, lindamente coberto de vegetação nativa.


P.S. Rascunhei esse post num restaurante de beira de estrada, após passar dias e dias sob sol forte, enfrentando problemas dos mais diversos, mas sem perder a esperança de que pelo menos minha filha, enxergue a importância do “meu” trabalho. Que na verdade tem nada de meu, é de uma galera massa, jovem, obstinada e decidida a mudar a cara desse órgão tão apedrejado que é o IBAMA. Fotos de Paulo Henrique, um dos componentes dessa “galera verde… do bem”.


